Brasília Barroca

“… um país enorme cuja unidade também é um milagre de abstração linguística e étnica.”

Alberto Moravia

Folha de São Paulo, 25 de janeiro de 2009

Olhando do avião, o lugar onde está Brasília, situada, como se fosse por acaso, entre as infinitas ondulações horizontais do planalto (mas parece que, após cálculos muito precisos, este lugar foi escolhido por ser o mais central do Brasil), leva a pensar em um monte de bifes ensanguentados expostos no balcão de um açougueiro.
Formas quadradas mais ou menos vermelhas de acordo com a época mais ou menos recente das escavações de terra revelam as áreas destinadas à construção dos edifícios, que foram arrancadas da vegetação tropical.
O avião demora a aterrissar porque a pista não está livre, o que é frequente neste país com poucas estradas e poucas ferrovias, mas de aeroportos congestionados; e plana várias vezes sobre Brasília.

Coração de concreto
Eis a chamada cidade livre, um turbilhão de pequenos retângulos, ou melhor, de barracões, alinhados ao longo de uma rua enorme: como no “Far West”, na época da febre do ouro, aqui se aglomeram os comerciantes que chegam aos montes de todos os lugares (é ouro, porém, o que o Estado brasileiro gasta em Brasília).
Eis, em pé aqui e ali, tal qual peças de dominó desordenadas, os ainda raros edifícios; eis a meia-lua azul do lago artificial entre o tom avermelhado de sangue das escavações e o amarelado da vegetação.
Eis as complicadas aortas pretas deste coração de cimento, melhor dizendo, o sistema viário planejado por Lucio Costa, o mais moderno do mundo, pelo que parece; eis, em volta de Brasília, o crescimento danoso e ingrato da mata, que, como sabemos, se prolonga por milhares de quilômetros, em meio aos quais a cidade caiu como um meteoro em chamas, sacrificando a terra árida com sangue.
Do alto, a vontade que deu origem a Brasília vem à tona com clareza: criar uma capital abstrata para um país enorme cuja unidade também é um milagre de abstração linguística e étnica; penetrar com a força do Estado no interior selvagem do Brasil, depois que as incursões individuais não deram grandes resultados; arrancar a classe dirigente brasileira das cidades costeiras preguiçosas e barrocas e obrigá-la a retomar com os meios modernos a marcha dos antigos colonizadores em direção ao interior.
Brasília, capital burocrática, como Ancara [Turquia], como Washington, como Canberra [Austrália], saberá ela ser mais vivaz que essas cidades construídas pela força da vontade?
Acreditamos que sim, se não for por outro motivo, porque, como dissemos, a ambição de Brasília é dupla: não apenas se tornar a capital do país, mas também assumir a função de trampolim para a colonização e a civilização dos vastíssimos territórios do noroeste e do Nordeste.

Lilliput
O carro corre agora por uma grande rua asfaltada de largura imensurável entre duas faixas de uma mata amarelada e contorcida que parece sofrer por existir, em direção ao céu azul vazio.
Eis então surgirem lentamente no horizonte duas torres, ou melhor, dois retângulos estreitos e altíssimos, ligados por uma ponte, semelhantes às lentes de um binóculo gigantesco. É o edifício do governo [o Congresso Nacional], construído, como toda Brasília, segundo os projetos de Oscar Niemeyer, o arquiteto genial que teve a sorte de receber a encomenda não de um edifício ou de um conjunto de edifícios, mas de uma capital inteira.
As duas torres sobem, sobem, repletas de centenas de janelas; no final, abaixo delas surge um longo edifício horizontal sobre o qual pousam duas frigideiras enormes de cimento amarelado, uma virada para baixo e a outra virada para cima.
Por um momento os olhos não acreditam no que veem, uma vez que, enquanto até um arranha-céu altíssimo é aceitável justamente porque é geométrico, a naturalidade de uma sopeira que parece ser feita para o apetite de um gigante tem alguma coisa de alucinante.
E, de fato, por um instante sentimos que somos como os minúsculos habitantes de Lilliput e quase involuntariamente procuramos no céu vazio a forma ameaçadora de um novo Gulliver.
Não há gigantes; mas a impressão de gigantismo arquitetônico e, portanto, de esmagamento e aniquilação da figura humana permanece e se afirma durante toda a visita.
Brasília foi construída por vontade de Kubitschek, que é um presidente democrático, para um Brasil democrático.
Mas a observação daqueles edifícios que se elevam como torres no meio de enormes espaços vazios faz pensar em lugares e monumentos de antigas autocracias, por exemplo em Persépolis, que tinha suas colunas gigantescas em frente a uma planície não muito diferente daquela de Brasília.
A atmosfera ditatorial é, por outro lado, confirmada pela solidão metafísica dos lagos de asfalto em que surgem os edifícios. Essas solidões urbanas antecipadas nas perspectivas surrealistas de De Chirico e Salvador Dalí expressam muito bem o sentido de mistério e desorientação que o homem moderno sente diante dos poderes que o governam.
Mas talvez sejam impressões precipitadas, porque em Brasília as coisas foram feitas ao contrário: outrora surgiam inicialmente as casas de moradia, depois vinham os edifícios monumentais; em Brasília se começou com estes últimos; as casas de moradia serão construídas no futuro.
Antes de qualquer outra coisa, o Brasil é um país de arquitetos e Brasília é, antes de tudo, um experimento arquitetônico. Mas, para entender Brasília, é preciso, em nossa opinião, referir-se ao Brasil colonial da Bahia e das outras cidades barrocas do litoral.
É bom que se fique sabendo, a relação não é formal e estilística, mas sim psicológica.
Ao barroco delirante das igrejas coloniais corresponde de fato, no sentido psicológico, o gigantismo não menos exaltado de Brasília.

Orgulho de conquistador
Fica claro que estamos diante de uma explosão barroca mascarada de funcionalismo.
Tomemos como exemplo o já descrito edifício do governo: a altura imensurável das duas torres encostadas de tal forma a não permitir que as janelas de dentro tenham nem sol e nem vista; a naturalidade extravagante das frigideiras gigantescas pousadas no terraço do edifício horizontal; a imensa ponte inclinada que leva do espaço para esse terraço, ou seja, a absolutamente nada, e que não tem outra função que não seja a decorativa -tudo induz a uma concepção grandiloquente, embora expressa com uma linguagem moderna.
Na verdade, houve aqui um toque de orgulho exatamente como em certas cidades da Antiguidade fundadas depois de uma conquista cruel. O orgulho de um país novo que, pela segunda vez na sua história, prepara-se para partir à conquista de si mesmo.
De resto, a confirmação da ambição especialmente monumental de Brasília está no interior desses prédios grandiosos que com muita frequência desiludem pelo conjunto e convencionalismo das soluções; é quase como se o entusiasmo da celebração tenha se esgotado nas principais estruturas, e não tenha havido a preocupação de cuidar dos detalhes.
À originalidade sedutora das fachadas não corresponde uma originalidade semelhante atrás das fachadas: salas sinuosas e imensas a perder de vista, com tetos excessivamente baixos, pontilhadas de robustas colunas cilíndricas que trazem saudades das tradicionais divisões de paredes e portas; escadas largas e sem balaústre, que levam do primeiro ao segundo andar sem nenhuma graça, tal como nas grandes lojas e nas docas; principalmente cimento armado em todos os lugares, mesmo no revestimento e na decoração, onde se esperaria o uso de materiais mais bonitos e de mais prestígio.
Em resumo, o edifício tão corajoso por fora se revela preguiçoso e apressado por dentro. Não é possível negar que o julgamento aqui também é precipitado porque o edifício ainda não recebeu seus últimos retoques. […]

Desumanidade
O pôr-do-sol nos surpreende, ao final da visita apressada a Brasília, de forma repentina e traidora.
Um momento antes o sol enchia com sua luz vital as grandes ruas asfaltadas e desertas, as escavações de coloração sanguínea, a vegetação poeirenta; um momento depois, eis que a sombra da noite retira aquela vitalidade do ar que escurece, e improvisadamente, enquanto nos dirigimos para o aeroporto, ultrapassados e seguidos por numerosos caminhões abarrotados de operários que voltam dos canteiros de obras, a atmosfera à nossa volta torna-se estrangeira e hostil.
A vegetação tropical que havíamos esquecido visitando os edifícios racionais da cidade aparece novamente, amarelada e decrépita, atrás da tatuagem roxa de algumas placas de ruas em néon.
As miríades de lâmpadas brancas que se distanciam na noite parecem penetrar em uma escuridão sem fim.
E de repente sente-se a falta, em meio a tanta monumentalidade dos edifícios estatais e tanta leveza nos asfaltos, das casas humildes e das ruas humildes que em outros lugares são o testemunho da presença de uma humanidade talvez pouco ambiciosa, mas fiel e enraizada.
Assim, depois da visita, Brasília reaparece como a havíamos imaginado do avião ao chegar: um ato de coragem pioneiro; o símbolo de uma vontade de conquista; a demonstração de uma possibilidade de longo prazo. À luz desta reflexão, o gigantismo de Brasília parece ter uma explicação; como o barroco das igrejas construídas nas cidades do litoral pelos primeiros colonizadores.


A íntegra deste texto foi publicada no “Corriere della Sera” em 28 de agosto de 1960.