O sentido da Política

Postado por Augusto de Franco no Facebook:

SÓ A COMUNIDADE POLÍTICA PODE VER UMA COISA POR TODOS OS LADOS

Hannah Arendt (1950) em O Sentido da Política (capítulo I, fragmento 3b) descobre traços de uma nova epistemologia na invenção da democracia ateniense:

“O decisivo não era, de maneira alguma, cada um poder dizer o que bem entendesse, ou cada homem ter um direito imanente de se expressar tal como era. Trata-se aqui talvez da experiência de ninguém poder compreender por si, de maneira adequada, tudo que é objetivo em sua plenitude, porque a coisa só se mostra e se manifesta numa perspectiva, adequada e inerente à sua posição no mundo.

Se alguém quiser ver e conhecer o mundo tal como ele é ‘realmente’, só poderá fazê-lo se entender o mundo como algo comum a muitos, que está entre eles, separando-os e unindo-os, que se mostra para cada um de maneira diferente e, por conseguinte, só se torna compreensível na medida em que muitos falarem sobre ele e trocarem suas opiniões, suas perspectivas uns com os outros e uns contra os outros. Só na liberdade do falar um com o outro nasce o mundo sobre o qual se fala, em sua objetividade visível de todos os lados.

O viver-num-mundo-real e o falar-sobre-ele-com-outros são, no fundo, a mesma e única coisa, e a vida privada parecia ‘idiota’ para os gregos porque os privava dessa complexidade do conversar-sobre-alguma-coisa e, com isso, da experiência sobre como a coisa acontecia, de fato, no mundo.[…]Somente em tal universalidade uma única e mesma coisa pode revelar-se em toda sua realidade, sendo preciso ter presente que cada coisa possui tantos lados e pode revelar-se em tantas perspectivas quantos homens nela participam. Uma vez que o espaço público-político é para os gregos a coisa comum (koinon), na qual todos se reúnem, ele é o âmbito onde só então todas as coisas podem revelar-se em toda sua universalidade.

Essa capacidade fundada em última análise na imparcialidade homérica, de ver a mesma e única coisa primeiro de lados opostos e depois de todos os lados, que não tem rival na Antiguidade e até nosso tempo ainda não foi superada em sua intensidade emotiva, ainda serve de base para os truques dos sofistas cuja importância para a libertação do pensamento humano das ligações dogmáticas é subestimada, quando, seguindo-se o exemplo de Platão, se a condena moralmente.

Contudo, essa extraordinária capacidade do argumentar tem importância de segunda categoria para a constituição da coisa política, que se realizou pela primeira vez na polis. O decisivo não é dar-se voltas em argumentos, nem que se possa pôr afirmações de cabeça para baixo, mas sim que se adquiriu a capacidade de ver, de fato, as coisas de diferentes lados: isso significa, politicamente, que passou-se a saber abranger as muitas posições possíveis no mundo real, a partir das quais a mesma coisa pode ser contemplada e nas quais apresenta os aspectos mais distintos, apesar de seu caráter particular.

[…]

Se for correto que uma coisa só é realmente no mundo do histórico-político, assim como no mundo do físico, quando mostrar-se e puder ser percebida de todos os lados, então ela sempre precisará ser observada e definida por uma pluralidade de homens ou de povo, ou de uma pluralidade de ângulos, para se fazer realidade possível e garantir sua continuidade.

Em outras palavras, só surge mundo porque há perspectivas, e só existe por causa de uma correspondente ordem de coisas. Se um povo, ou um Estado, ou apenas um determinado grupo de homens, é exterminado porque, em todo caso, tem uma posição qualquer no mundo que ninguém pode duplicar sem dificuldade, que apresenta uma visão de mundo só realizável por ele —, então não é apenas um povo, um Estado ou uma certa quantidade de homens que morre, senão que uma parte do mundo comum é aniquilada — um lado do mundo mostrado antes, mas que jamais poderá mostrar-se de novo.

Por conseguinte, o aniquilamento iguala-se aqui não apenas a uma espécie de fim do mundo, senão que atinge também os aniquiladores. A rigor, a política não tem tanto a ver com os homens como tem a ver com o mundo surgido entre eles e que sobreviverá a eles; na medida em que se torna destruidora e causa fins de mundo, ela destrói e se aniquila a si mesma.

De outra maneira: quanto mais povos houver no mundo que tenham entre si essa relação e outras, mais mundo se formará entre eles e maior e mais rico será o mundo. Quantos mais pontos de vista houver num povo, a partir dos quais possa ser avistado o mesmo mundo, habitado do mesmo modo por todos e estando diante dos olhos de todos, do mesmo modo, mais importante e mais aberta para o mundo será a nação”.