Número de Dunbar e virtude epistêmica

Thiago Nogueira

Os seres humanos têm uma profunda necessidade de fazer parte de alguma tribo ou comunidade – e isso pode ser explicado pelo processo evolutivo da nossa espécie. Como o Harari e outros autores mostram, sobrevivemos porque nos agrupamos em tribos relativamente pequenas.

Porém, isso também fez com que nos tornássemos extremamente dependentes destes grupos, pois sem eles, era literalmente IMPOSSÍVEL garantir nossa sobrevivência. Apesar de hoje em dia não precisarmos mais da convivência em tribos para assegurar nossa integridade física, ainda temos algum tipo de dependência de grupos sociais para o nosso bem estar psicológico. E por conta disso, criamos tribos ao redor dos mais variados temas, como times de futebol, gostos musicais e até partidos políticos. Até aí, é uma prática bastante saudável, que está em consonância com o nosso padrão evolutivo.

Os problemas começam quando nos damos conta que para manter a coesão entre os membros e preservar o sentido de unidade, é fundamental controlar o crescimento da tribo. Afinal, toda tribo ou grupo que cresce em tamanho tende a perder sua identidade original, pois com a entrada de pessoas novas, com interesses que já não são tão parecidos com os dos membros originais, as conexões vão sendo diluídas até o ponto em que deixam de existir – fazendo com o que o grupo comece a se dividir.

O antropólogo Robin Dunbar estudou diferentes culturas e tribos pelo mundo e chegou ao Número de Dunbar, que seria um limite cognitivo do número de pessoas com as quais um indivíduo conseguiria manter relações sociais estáveis. Este número varia entre 100 e 230 pessoas. Para ele, em comunidades maiores do que isso, começa a ser difícil conhecer com certo nível de profundidade os elementos da tribo.

Dunbar notou a apropriação deste conceito pelas organizações militares, que com o passar dos anos, chegaram a uma regra empírica que dizia que unidades de combate funcionais não poderiam ter mais do que 200 homens: “Com unidades desse tamanho, é possível implementar ordens e controlar comportamentos rebeldes com base na lealdade pessoal e em contatos diretos homem a homem.

Nos grupos maiores, isso é inviável”. Dependendo do grupo, esse número pode até ser ampliado. Porém, é importante deixar claro que a regra de Dunbar sempre se mantém – o que significa que eles jamais tenderá ao infinito. E isso, obviamente, explica porque certos políticos, ao invés de falar para audiências mais amplas, desperdiçam todo o seu tempo pregando apenas para convertidos. No fundo, o receio de perder a sua base de apoio é maior que a vontade de buscar novos adeptos.


No livro, O Ponto da Virada, Malcolm Gladwell utiliza como exemplo deste conceito um grupo religioso conhecido como huteristas, que vivem de agricultura e subsistência em colônias da Europa e em alguns lugares dos Estados Unidos. Os huteristas adotam a política de dividir a colônia assim que o número de integrantes se aproxima de 150, e seguem essa regra há séculos, com o objetivo de garantir que os integrantes conheçam bem uns aos outros e mantenham-se entrosados.


Os perigos do tribalismo são óbvios e vão de fanatismo e xenofobia até a violência pura e simples. Isso acontece, porque o sentimento de pertencimento faz com que o indivíduo se sinta autorizado a cometer diversos tipos de atrocidades em nome ou em defesa de sua tribo. E as torcidas de futebol, provavelmente, são o exemplo mais comum disso.

Esse risco é reforçado pelo fato de que, hoje em dia, os espaços de interação são anônimos e impessoais. E todos sabemos que quando não estamos cara a cara, olhando nos olhos do nosso interlocutor, fica muito mais difícil desenvolver empatia e tratá-lo como uma pessoa real. É praticamente como se as pessoas estivessem conversando com bots, indignos de respeito e consideração.

Nesse ambiente “despersonalizado”, atacar alguém com uma opinião divergente é reforçar a nossa “identidade tribal”. Afinal, como bem sabemos, a identidade de uma tribo não passa só pelo que ela é, mas também pelo que ela não é. E muitas vezes é mais fácil definir a si mesmo através da oposição ao outro do que através daquilo que o indivíduo de fato é. E quanto maior o sentido de pertencimento a uma tribo, maior é a adesão ao conjunto completo de suas ideologias.

Para evitar isso, Scott Alexander, famoso por seu blog LessWrong, sustenta que uma das soluções para o problema do Tribalismo seria a formação de comunidades baseadas na “virtude epistêmica“, ou seja, na busca pelo conhecimento através do diálogo.

O “problema” é que uma comunidade assim, seria aberta a múltiplos pontos de vista e guiada pela curiosidade de seus integrantes. Com o tempo, a própria capacidade dos participantes de mudar de opiniões quando confrontados com novas informações e evidências, fugindo de uma visão de mundo rígida e enviesada, reduziria a importância e o sentido do grupo em sua vida – o que, evidentemente, deixaria os líderes tribais em maus lençóis.

Por isso, do pastor neopetecostal, passando pelo influencer que vende cursos de “escrita persuasiva”, até chegar ao político que mobiliza sua militância em torno de pautas absolutamente irrelevantes e desnecessárias, todos tem verdadeiro HORROR a ideia de abrir o grupo para vozes discordantes. Eles sabem que para o grupo se manter popular (e íntegro), também é indispensavel que se mantenha fechado e medíocre.