O católicos inventaram a Ciência

Pe. Paul Robinson — FSSPX

“Eu arguo não apenas que não há inerente conflito entre religião e ciência, como também que a teologia católica foi essencial para a promoção desta. Na demonstração dessa tese eu primeiro resumi muito dos recentes trabalhos históricos que mostram que a religião não causou a “Era das Trevas” – O conto de que após a queda de Roma uma longa noite de ignorância e superstição teria se estabelecido sobre a Europa. De fato, a Idade Média, foi uma era de profundo e rápido progresso tecnológico no final da qual a Europa ultrapassou o resto do mundo. Além disso, a chamada Revolução Científica do século XVI foi o resultado dos desenvolvimentos iniciados pelos escolásticos no século XI. Portanto, minha atenção inclinou-se para o porquê de os escolásticos interessarem-se pela ciência. Por que a desenvolveram na Europa durante esse período? Por que não desenvolveram outra coisa? Eu achei as respostas a estes questionamentos nas características sem iguais da teologia católica.”

Estas não são palavras de um católico, não são palavras de um “lobista” da religião. Ao contrário, elas vêm da boca do sociólogo e historiador Rodney Stark, e elas aparecem em um livro que escreveu para a editora da Universidade de Princeton1. Além disso, ele ressalta que “foi o cristianismo e não o protestantismo que sustentou a ascensão da ciência”; e que “alguns de meus argumentos centrais já se tornaram convencionais entre os historiadores da ciência.”

Neste artigo, vamos defender as afirmações de Stark explicando, primeiramente, o que era necessário para a ascensão da ciência, em seguida, porque esta ascensão não aconteceu antes da Idade Média e por fim, porque a teologia católica deu origem a ciência.

As demandas da ciência

A ciência, como conhecemos hoje, possui um específico método para investigação da realidade que envolve conduzir experimentos na natureza, medindo e quantificando os resultados, formulando teorias sobre suas leis baseadas nessas medições. A razão pela qual podemos falar de “nascimento da ciência” é que esse método não existiu durante a maior parte da história do mundo. Durante esse tempo, ninguém viu a necessidade de escrutinar a matéria de perto e ninguém viu o quão útil a medição e a matemática podiam ser para a compreensão do tecido do mundo cósmico. Desde que o método científico foi inventado, pelos escolásticos medievais católicos, quase todos clérigos, foi empregado com retumbante sucesso para o avanço do conhecimento humano.

A causalidade das visões de mundo

Antes de abordarmos o sucesso, precisamos examinar a falha. Porque levou tantos séculos para os humanos iniciarem sistematicamente a quantificar as propriedades e movimentos dos corpos físicos? A resposta curta é: eles não tinham a idéia correta acerca da realidade, a correta “visão de mundo.”

Se o intelecto humano é frequentemente referido como “o olho da mente” a visão de mundo pode ser pensada como sendo “a lente do olho da mente.” É através desse filtro que o intelecto vê a realidade. Assim como uma lente pode modificar a visão de uma pessoa fazendo objetos parecerem maiores ou menores, ou tornando-os mais escuros ou todos de uma mesma cor, a visão de mundo de uma pessoa pode distorcer o que ela vê na realidade ou mesmo impedi-la de ver certos fatos.

Em seu livro “Science and Creation”, Pe. Stanley Jaki sistematicamente analisa as visões de mundo de muitas civilizações que falharam em dar nascimento à ciência empírica: os Indianos, Chineses, Maias, Incas, Gregos, Egípcios, Babilônios e Mulçumanos. Sua conclusão é que certos elementos comuns de suas visões de mundo simplesmente as impediam de acreditar que há leis da natureza, ou de pensarem que poderiam investigar as propriedades quantitativas dos corpos na intenção de descobri-las. As duas idéias que mais imobilizavam eram a de que o mundo é eterno e que se move em ciclos incompreensíveis.

“Grandes culturas, onde o empreendimento científico foi paralisado, invariavelmente falharam em formular a noção de lei física, ou a lei da natureza. Suas cosmologias refletiam uma visão da natureza panteísta ou animista, capturada em uma esteira de perenes e inexoráveis retornos.” 2

Não temos espaço aqui para abordarmos em detalhe o porquê dessas duas idéias sufocarem a ciência, mas cabe dizer que elas fazem a realidade ter uma inevitabilidade irracional ao invés de uma inteligibilidade racional.

A teologia vem em socorro

Por que a Idade Média Católica foi bem-sucedida onde tantas outras falharam? Novamente, por causa da visão de mundo, dessa vez uma que permeou a sociedade através do ministério da santa Mãe Igreja. Há duas crenças que foram particularmente poderosas para conduzir à invenção da ciência: a Criação e a Encarnação.

A Criação

Em primeiro lugar, para o desenvolvimento da ciência, é importante uma cultura que creia que uma mente está por detrás do que acontece no mundo, uma mente que permanece fora desse mundo e tem o poder de legislar sobre ele, de vinculá-lo a leis consistentes e racionais. Isso é exatamente o que foi ensinado aos católicos sobre Deus. Eles foram, além disso, instruídos de que Deus nos fez a sua imagem, especialmente no poder racional de nossa alma imaterial.

Portanto, quando um católico observa a realidade, ele crê justamente que há uma ordem racional nela, advinda da mente de Deus, e que sua própria mente foi feita pelo mesmo Deus. Essa visão de mundo engendra uma grande confiança de que nós podemos descobrir as leis inerentes a realidade.

Além disso, os escolásticos da alta Idade Média, ao contrário do decadente período que se iniciou no século XIV3, sustentavam que os humanos são criados a imagem de Deus mesmo na estrita hierarquia de suas faculdades. O intelecto vem primeiro, isso é verdadeiro nos humanos, portanto deve ser verdadeiro em Deus: Ele precisa seguir seu intelecto. E como o intelecto de Deus é soberanamente sábio, então a vontade de Deus não pode escolher algo arbitrariamente. Ao contrário, tudo que Ele faz na realidade é executado com uma sabedoria inteligível.

Este posterior refinamento da concepção de Deus não é trivial. Os muçulmanos da mesma forma creem na Criação e em um Deus transcendente, mas eles não creem em um Deus ordenado. Para eles, A vontade de Allah é suprema sobre a razão de Allah. Como resultado, o que Allah faz é arbitrário e esta arbitrariedade é impenetrável para a razão. Eis porque a visão de mundo dos muçulmanos não conduziu ao nascimento da ciência.

A Encarnação

Os muçulmanos também não creem na Encarnação, uma doutrina que provou-se igualmente crucial para o advento da ciência. Para fazer ciência, como mencionamos, é necessário realizar experimentos com as coisas materiais, mas as coisas materiais não tem inspirado historicamente muita confiança nos pesquisadores. A razão para isso é que elas estão constantemente mudando4. Assim sendo, elas parecem representar o oposto da consistência e regularidade, o oposto da lei. Eis porque os muitos povos não católicos que precederam o advento da Cristandade pareciam dar pouca atenção a possibilidade de usar experimentação para entender a realidade.

Os Católicos, por outro lado, tinham que abordar a matéria seriamente. Não apenas por ter sido criada por um Deus racional, mas também por que este mesmo Deus assumiu um corpo material, morreu e ressuscitou em um corpo material e hoje reina no Céu com esse mesmo corpo material. A convicção Católica na doutrina da Encarnação faz a Igreja ver tanto a matéria como as faculdades pelas quais a vemos (nossos sentidos) sob uma luz diferente. Isso a move a ter um grande respeito pelo fato empírico que o mundo antigo nunca entendeu.

Um desses fatos empíricos que deveríamos respeitar, é o de que a visão de mundo católica conduziu à formulação do método científico. Vejamos um exemplo de um personagem medieval exercendo a sua ciência.

Um cientista de verdade

Uma das figuras que manifestaram a nova, medieval, aproximação para o entendimento da natureza foi Robert Grosseteste5. Ele foi bispo de Lincoln, Inglaterra, e viveu de aproximadamente 1168 a 1253. Dom Grosseteste lançou mão de experimentos como parte integral de sua investigação, insistindo que o conhecimento preciso sobre a natureza não pode ser obtido sem o uso da matemática, e sustentando que era função do cientista formar hipóteses sobre a causa do fenômeno estudado. Apenas quando o cientista controla suas observações de modo a eliminar todas as outras possíveis explicações, ele estará apto a concluir que sua hipótese está correta.6

A metodologia de Dom Grosseteste é efetivamente idêntica ao método científico que conhecemos hoje.

Conclusão

O método científico não existiu na maior parte da história do mundo, porque ninguém experimentava com os corpos físicos e quantificava-os em ordem a descobrir as leis da natureza. Coube a uma particular visão de mundo teológica – a visão de mundo católica encarnada na Cristandade medieval – inspirar nos humanos que uma investigação acurada dos corpos materiais poderia revelar leis. Impulsionados por esta confiança, cientistas da Idade Média iniciaram na humanidade um novo território de exploração, um que desde o começo revelou fantásticos segredos sobre a sabedoria de Deus no desenho do nosso cosmo.

Sempre que acusações superficiais são arremessadas contra a Igreja sobre sua suposta oposição ao progresso científico, relembremos esse fato histórico: foi a mãe Igreja que deu nascimento ao empreendimento científico.

Tradução: Fábio Almeida e Sousa – The Angelus, Set/2019
Publicado na Revista Permanência Online


  1. For the Glory of God (2003), p.123 (Itálico no original). As mesmas conclusões podem ser achadas em muitos outros modernos trabalhos. The Foundations of Modern Science in the Middle Ages de Edward Grant e The Genesis of Science de James Hannam são especificamente recomendados. (Nota do Original)
  2. Science and Creation (Scottish Academic Press, 1974), p.viii. Eu falo sobre isso no capítulo 4 do The Realist Guide to Religion and Science. (Nota do Original)
  3. O autor se refere a Renascença. (Nota do Tradutor)
  4. Os filósofos pré-socráticos Parmênides e Heráclito duelaram sobre a questão dessa mutabilidade das coisas sem, no entanto, chegarem a uma conclusão satisfatória. Muito depois Aristóteles solucionou a questão com os conceitos de Potência e Ato. A filosofia de Aristóteles foi essencial para o desenvolvimento da Teologia de Santo Tomás de Aquino, o maior dos doutores da Igreja. (Nota do Tradutor).
  5. Ver The Realist Guide to Religion and Science, p.185. (Nota do Original)
  6. R. Dales, The Scientific Achivement of the Middle Ages (Philadelphia: Editora da Universidade da Pensilvânia, 1973), p.62 (Nota do Original).