Notas sobre a oração

O presente artigo é uma adaptação do terceiro capítulo da obra clássica “Amor Sublime” (‘This Tremendous Lover’), de Dom Eugene Boylan, OCR (1904 – 1964), intitulado “A procura de Cristo na oração”. Boylan foi um monge trapista de origem irlandesa e destacado autor dos temas espirituais. Iniciou sua obra na década de 1940, quando publicou este “Amor Sublime” e “Dificuldades na Oração Mental”, que foram traduzidos em diversas línguas. Em 1962, ele foi eleito o quarto Abade do Monte St. Joseph Abbey em Roscrea, Irlanda. Dois anos depois, veio a falecer num acidente de automóvel.


O NOSSO EXAME da vida sobrenatural, que é conferida a todas as almas no Batismo, chegou ao ponto de termos que considerar mais minuciosamente o programa que deve ser seguido por quem deseja viver essa vida. Já vimos que no Batismo se estabelece uma união íntima entre Deus e a alma da pessoa batizada. Deus concede ao neófito – ao recém-convertido, recém-batizado ou o batizado que andou afastado da Igreja e agora procura retomar uma vida mais espiritual e santificada –, uma participação na sua própria Natureza; derrama na sua alma as virtudes infusas da fé, esperança e caridade, e torna-o membro do Corpo Místico de Cristo. O dever fundamental de todo o cristão é amar a Deus com todo o seu coração, e ao seu próximo por amor de Deus. O plano geral do programa que esse cristão deve seguir é tomar uma atitude de humildade e seguir a prática da conformidade com a Vontade de Deus na fé, na esperança e na caridade.

De fato, esta última sentença resume quase tudo, mas deve ser bem compreendida em si mesma, e também é preciso compreender bem as suas implicações. Se é preciso entender como é que se pode cumprir esse programa de oração, surgem de imediato as perguntas: a quem se destina? A quem se aplicam os seus princípios? A resposta é que se aplica a toda alma batizada, e nossa intenção ao formular estes princípios é aplicá-los a todos, sejam leigos (cujo estado já foi definido quer pelas circunstâncias, quer pela sua própria escolha, tenham ou não contraído o Matrimônio) ou sacerdotes, seculares ou religiosos. 

Não excluímos nenhum batizado disposto a procurar evitar o pecado mortal. Pouco importa a idade ou o sexo, nem suas condições gerais, sua educação e/ou sua história. Não importa quais pecados tenha cometido no passado ou quais oportunidades de progredir na vida espiritual não tenha aproveitado, nem quais graças tenha recusado; desde que se trate de pessoa batizada, que esteja disposta a procurar evitar os pecados mortais, toda a doutrina que explicaremos a partir deste ponto pode ser aplicada ao seu caso.

A razão dessa certeza vamos encontrá-la no Nome dado ao Filho de Deus, em sua Encarnação: “o Nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados”(Mt 1,21). Lembremo-nos que a maior censura que os falsos fariseus se lembraram de lançar contra Nosso Senhor foi exatamente a de apelar para uma sua característica já bem conhecida: “Ele recebe os pecadores” (Lc 15,2).

Sendo a vida espiritual uma muito especial sociedade com Jesus, e também uma tendência de todo o se do cristão para Jesus, ninguém deve ter receio de ser repelido por Ele, pois não há ninguém a quem Ele não receba. Portanto, quer o leitor seja um daqueles que buscaram sempre a Presença divina, desde a juventude, e queira viver melhor, ou seja um dos que reconhecem que a sua vida tem sido de mediocridade e tibieza, ou ainda um daqueles que mal se ergueram do atoleiro do pecado mortal, nada disso importa; estas orientações são também para eles e para eles estão abertas todas as possibilidades aqui tratadas. 

Apenas pedimos ao leitor que não se glorie de qualquer bem que já praticou (ou dos seus êxitos em evitar o mal), que se arrependa do mal que praticou e do bem que deixou de fazer e que se prepare para fazer melhor no futuro, confiando no Auxílio e Sociedade de Jesus, seu Salvador.

O programa a seguir, desde o princípio, é entrar em contato, o mais depressa possível e o mais íntimo possível, com Nosso Senhor. O Cristo é, Ele mesmo, a própria Revelação de Deus; é o modelo de Deus para os homens; é o Mestre vindo de Deus para os homens; é o Sócio e o Salvador dos homens; é, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida.

No entanto – e entender isto é muito importante –, o seu apelo a cada um dos homens não é o mesmo; depende do temperamento e de certas características particulares e das capacidades (físicas, mentais e espirituais) dadas de cada um. Por exemplo, aqueles que são dotados de natureza afetiva comovem-se mais com a Bondade e o Amor do Cristo, Deus feito homem por amor a cada um de nós; já os mais austeros tendem mais para ver nEle um Mestre, um Guia e um Rei. Mas o apelo divino é geral, é para todos os homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, solteiros e casados, sacerdotes, religiosos e leitos, consagrados ou não, e não há coração ao qual Ele não possa satisfazer.

São quatro os meios de entrar em comunhão com Ele:

A oração, os Sacramentos, a leitura espiritual e a conformidade com a Vontade de Deus. Este último inclui os outros todos, mas, num primeiro momento, apenas queremos nos referir às obrigações impostas pelos Mandamentos e deveres do próprio estado de cada um.

Estes quatro meios de procurar Cristo não são independentes. Com efeito, no desenvolvimento da prática e do conhecimento da vida espiritual, devemos progredir em círculos, se assim nos podemos exprimir: primeiro, um círculo pequeno que se alarga e agrega a si novas ideias ou novas práticas, até atingirmos a plenitude. Progresso numa única direção pode sair coxo e em geral falha, porque as diferentes partes do verdadeiro progresso dependem umas das outras. Precisamos de conhecimentos para rezar a Deus, precisamos de graça para adquirir conhecimentos e precisamos da oração para conseguir a graça. Não podemos orar com sinceridade se não formos sinceros no cumprimento da Vontade de Deus e não podemos cumprir a Vontade de Deus se não lhe pedirmos sua Graça.

Há outro ponto ainda a notar. Falamos da procura de Cristo, mas já dissemos que a vida cristã se inicia na união íntima com Cristo. Não haverá contradição aqui?
Talvez pareça que existe, pelas palavras, mas a realidade não é tão contraditória como parece. Vejamos: a Presença de Nosso Senhor fora de nós não interfere com a sua Presença dentro de nós. E a Presença de Nosso Senhor na nossa alma não interfere com o seu crescimento nela mesma, nem com a sua vinda até nós, para entrar em união mais íntima conosco. De fato, é-nos proibido recebê-lo na Santa Comunhão se Ele não estiver já nas nossas almas com a sua Graça. Além disso, estamos empregando palavras humanas para explicar coisas divinas, e as palavras humanas são inadequadas para tal. Por vezes, precisamos empregar figuras variadas de linguagem para dar indicação do que queremos significar.

Uma forma de encarar o problema é a adotada por Santa Teresa no seu livro “Castelo Interior”, em que ela compara a alma a um castelo. Quando um homem está em pecado, está fora do castelo. Deus está muitas vezes na nossa alma, e nós estamos fora de nós: não O podemos encontrar em nós e temos de O procurar em outra parte. Acontece muitas vezes que não podemos entrar em nós próprios; fechamo-nos a nós mesmos e não podemos encontrar a chave.

É uma analogia profundíssima. Apesar da confusão aparente das palavras, porém, o católico comum é capaz de compreender plenamente estas ideias e sabe que correspondem à realidade. Sim, mesmo depois de ter encontrado Deus nas profundidades da sua alma, pode ainda rezar a Deus no Céu, sem qualquer sentido de inconsistência. Não devemos, portanto, supor que estamos a negar o que já afirmamos sobre a morada de Deus em nós ao falarmos agora da partida à procura de Deus, porque, quer consideremos Deus dentro de nós, quer O consideremos fora de nós, temos sempre de partir de nós próprios para O encontrarmos. E mesmo quando nos encontramos já unidos a Ele, veremos que essa união pode ser aumentada ou aperfeiçoada, compartilhando com Ele daqueles mesmos atos com os quais O procuramos.

O primeiro meio de procurar a Deus que vamos considerar é a oração. A oração, diz-se, é “uma elevação da alma para Deus”, e também se define como “uma conversação com Deus” ou uma “procura amorosa de Deus pela alma”. Em um sentido específico é também o “pedido das graças convenientes a Deus”.

Na prática, começamos a orar atraindo Deus ao nosso pensamento, ou, falando com mais propriedade, dirigindo o nosso pensamento a Deus. Ele está em toda a parte; pondo, portanto, de lado todos os outros pensamentos e considerando-nos na sua Presença, podemos sempre rezar. Torna-se, porém, necessário um esforço para nos libertarmos de todos os outros pensamentos, e precisamos formar ideia clara de Deus para dominá-los ou para ocupar a nossa imaginação. Neste sentido podemos citar a ligação que se verifica entre a oração e a leitura, porque a leitura desempenha um papel preponderante em formar uma ideia de Deus. “Como, pois, invocarão Aquele em quem não creram? e como crerão Naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10,14). Pois bem, os Apóstolos nos falaram dEle pela pregação, como o continuam fazendo ainda hoje os seus sucessores, e pelos seus escritos; indiretamente, também pelos escritos dos que se inspiraram neles e no Evangelho do mesmo Senhor, proclamando uma só Fé e um só Batismo (Ef 4,5). Assim é que por meio da leitura espiritual formamos ideia de Deus, como também pelo ouvir a pregação e os bons testemunhos.

Podemos escolher o caminho que nos parecer mais conveniente para representar Deus a nós próprios. As necessidades individuais variam tanto que não se podem assentar em qualquer norma definida, e por não compreender isto muitas almas sofrem e se perdem.

Para alguns, basta-lhes a noção de Deus; outros contemplam a humanidade de Nosso Senhor em alguns dos seus Mistérios, outros ainda concentram a sua atenção no Tabernáculo ou no Crucifixo. A melhor regra, porém, nesta como em outras questões semelhantes sobre a ação, é cada um rezar pela forma que entender mais conveniente. Sim, é preciso que o católico dito “tradicionalista” tenha a coragem de aceitar que não há, nem nunca haverá, de fato, um conjunto de regras fixas para todos os momentos ou para toda e qualquer situação que vai surgindo na busca espiritual.

Como já foi dito, o que funciona para um não necessariamente funcionará para o outro. Há, por exemplo, católicos que se realizam rezando o santo Terço diariamente. Há outros tantos que simplesmente não conseguem fazê-lo, e se condenam e sofrem por isso, sentindo-se culpados, infiéis ou incapazes… Mas não deveriam! A verdade é que nenhum católico é obrigado a rezar o Terço diariamente. Por mais piedosa, santa e frutuosa que seja esta prática, aquele que encontra sérias dificuldades em cumpri-la (dificuldades que não conseguem vencer mesmo que muito persistam) acabará por arrefecer e talvez desanimar completamente na vida de oração, caindo mesmo – num desfecho radical –, em risco de perder a própria alma, se não compreender e aceitar que deve buscar outro meio (que lhe seja mais natural) de cultivar a oração e a Comunhão com Deus – e com os Santos, os santos Anjos e a santa Mãe da Igreja.

Há alguns princípios que nos podem guiar. A oração é, em certo aspecto, uma coisa muito simples e, num outro aspecto, muito complexa. Visa um fim múltiplo, e se tivermos em mente os seus diferentes objetivos, podemos concernir qual a melhor forma de rezar.

O principal fim da oração é cumprir o primeiro dever de todo o homem imposto pelo sagrado Mandamento: prestar a Deus o culto devido. Esse culto inclui a adoração, que é o reconhecimento do Domínio supremo de Deus sobre nós e nossa dependência absoluta dEle, inclui a ação de graças, porque devemos tudo à bondade de Deus, e compreende também o reconhecimento da nossa condição de pecadores com um arrependimento sincero pelas nossas faltas contra Deus e a resolução de as expiar. Todavia não há necessidade, é claro, de traduzir estes sentimentos em palavras todas as vezes que oramos, mas convém que todos os dias e por qualquer forma declaremos esses sentimentos.

Não há para isso melhor meio do que aquele que nos indicou Nosso Senhor: rezar o Pai Nosso. Devemos, portanto, tomar todos os dias uma atitude formal de oração, de preferência de joelhos, e prestar assim a devida homenagem, mesmo que seja muito breve, a Deus. Há outro fim que devemos ter em vista na oração, que é obter certas graças que nos são necessárias.

A menor ação da nossa vida espiritual depende de Deus para ser iniciada e praticada; a própria conservação da nossa vida depende da divina Providência, e o êxito final dos nossos esforços exige a graça especial da perseverança final. Algumas destas graças são-nos concedidas por Deus, sem as pedirmos, porque Nosso Senhor Jesus Cristo é nosso infalível Mediador, e porque temos no Céu uma Mãe que se empenha em nos alcançar todo o bem. Muitas vezes, as principais graças são-nos concedidas sem que as peçamos, como é o caso do próprio dom da vida: quem de nós pediu para ser e nascer?

Há, porém, outras graças bem necessárias que Ele não nos concederá se não as pedirmos. É certo que Ele conhece bem as nossas necessidades, mas não é para O informarmos que Ele deseja que peçamos, e sim para nos informarmos a nós próprios da necessidade que temos dEle, de modo que vejamos nEle a Fonte de todo o bem e para que, ensinando-nos a ter confiança nEle, não nos convençamos de que teremos tudo o que quisermos sem o pedirmos, o que poderia nos tornar arrogantes e soberbos, iludidos numa falsa sensação de absoluta autossuficiência e independência.

Esta é uma das razões por que devemos dedicar todos os dias um período de tempo certo à oração. Ambas estas necessidades se podem satisfazer escolhendo a forma de oração que mais apelo exerça em nós, fazendo uso dela diariamente. Mais importante do que a duração, a beleza ou a forma é a persistência e a fidelidade.


O Pai-Nosso, como é óbvio, por ser a oração magna ensinada diretamente por nosso Senhor e Salvador, deve ser constante em nossas orações, e, como não podemos desprezar o auxílio precioso e incomparável de Nossa Senhora, a Ave-Maria também deve ter sempre o seu lugar em nossas invocações. Se quisermos fazer uso de um bom livro de orações, devemos empregar os meios que melhor nos pareçam para o fim que temos em vista. Importa que a lista de orações não seja demasiado longa. Vale mais rezar um Pai-Nosso com sinceridade do que desfiar as contas do Rosário inteiro sem pensar em Deus.

Por que – ao contrário do que afirmam certos diretores espirituais –, dizemos que as orações que decidirmos rezar todos os dias não devem ser muito longas? Para que se não se convertam numa tarefa pesada. De outra forma, é muito provável que acabemos por as recitar mal e que, mais cedo ou mais tarde, acabemos por não dizer nenhuma. Devemos reconhecer que somos humanos e falhos, e também é preciso saber diferenciar a condição dos religiosos e a dos leigos. Os primeiros têm suas rotinas bem definidas e próprias, conforme a regra de sua ordem ou congregação religiosa. Os segundos vivem uma situação completamente diferente. Também é diferente a situação de uma pessoa jovem, a de um adulto maduro e a de um idoso. Estes últimos, por exemplo, em geral têm mais tempo livre, mais paciência e mais conhecimento de si mesmos. Muitos leigos jovens que se dispõem e tentam se obrigar a rezar por longas horas por dia acabam desanimando e abandonando a vida espiritual, sentindo-se frustrados consigo mesmos e, muitas vezes, consciente ou inconscientemente frustrados com Deus. que esperavam que iria lhes dar toda a força para cumprir um itinerário que não é o ideal para eles.

A oração é coisa tão essencial à nossa vida espiritual que a não devemos associar à ideia de um incômodo
. Além disso, não é por muito falarmos que somos ouvidos, mas, isto sim, se forem boas as disposições do nosso coração. Mas não iria, por acaso, esta recomendação contra a admoestação do santo Apóstolo, que diz: “Orem continuamente”? A esse respeito, muitos grandes santos já chegaram à conclusão de que a mais perfeita solução é fazer de toda a vida uma grande e contínua oração. O que trabalha, trabalhe rezando, e não necessariamente uma oração vocal (o que seria inviável) ou recitando fórmulas em sua mente.

A grande oração é praticar a fé todos os momentos e oferecer cada minuto de nossos dias a Deus por meio dos nossos atos, pensamentos e escolhas. Quando deixamos de fazer algum mal, perdoamos, assumimos uma postura humilde ou aconselhamos bem um colega de trabalho ou estudo, por exemplo, isto é uma oração que elevamos a Deus e certamente o agrada mais do que muitos sacrifícios, jejuns e penitências (conf.  Jr 7,22; Os 6,6; Mt 9,13).

A única condição que Nosso Senhor impôs para cumprir as promessas que fez a respeito da oração foi que devíamos rezar em Seu Nome. Por palavras, devemos orar em sociedade com Ele e para benefício do Seu Corpo Místico. Unidos a Ele, temos à nossa disposição os seus Merecimentos infinitos, para apresentar diante de Deus; unidos a Ele, podemos dizer a Deus: “Este é o vosso Filho bem amado, no qual pusestes as vossas complacências: ouvi-O”.

As disposições para a oração são as disposições para uma sã sociedade com Cristo: fé, esperança, caridade, humildade e submissão à Vontade de Deus. É certo que mesmo o pecador pode e deve rezar: mesmo esse deve orar também por intermédio de Jesus Cristo, confiando nos seus Merecimentos infinitos, para que a sua oração seja ouvida diante do Trono de Deus, mas, se não tem essas disposições de fato, deve tê-las pelo menos em desejo.


É ÓBVIO QUE DEVEMOS acreditar na existência de Deus e em seu desejo de nos atender; isso está implícito no próprio ato de nos voltarmos para Deus. As nossas orações nascem da esperança de sermos ouvidos. 

Por outro lado, se estamos em pecado mortal e não temos desejo de nos reconciliarmos com Deus, conservamo-nos em estado de rebelião contra Ele. A caridade fraterna é também necessária à oração, porque devemos nos lembrar de como Nosso Senhor recomendou que, se alguém estivesse a ponto de fazer a sua oferta diante do altar e se lembrasse, aí, de que seu irmão tinha alguma coisa contra ele, devia deixar a oferta diante do altar, ir reconciliar-se primeiramente com o seu irmão e voltar depois a fazer a sua oferta (Mt 5,23-24). Logo, a eficácia de nossas orações depende diretamente, também, da nossa caridade para com o nosso próximo. 

Isto pode causar-nos surpresa, mas, se tivermos em mente que a caridade fraterna é necessária para se ser membro vivo de Cristo, compreenderemos por que motivo é necessária essa caridade, se é que rezamos invocando o Nome de Jesus. Só quando estamos unidos com os restantes membros, pela caridade, é que podemos com verdade orar em seu Nome.

A necessidade da humildade foi explicada na parábola do fariseu orgulhoso e do publicano humilde, e Deus avisou-nos de que resiste aos soberbos e dá sua Graça aos humildes. É necessário que estejamos na disposição de nos submetermos à Vontade de Deus; recusar isso é recusar reconhecê-Lo como Deus, é separarmo-nos de Cristo, que deu, Ele próprio, um exemplo clássico na sua oração no Getsêmani: “Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não se faça como eu quero, mas sim como Tu queres” (Mt 26,39).

Estas disposições vêm-nos em primeiro lugar da Graça de Deus e por isso devemos procurá-las na oração. Também se desenvolvem pela leitura e reflexão – o que constitui outro motivo para evitarmos orações muito compridas, porque onde se fala muito pensa-se pouco. Se se começar recitando, por exemplo, uma dezena do Rosário ou algumas orações de igual extensão, todas as manhãs e todas as noites, isto nos parece suficiente no que diz respeito à oração formal. Se encontrarmos, num bom livro de orações, algumas que exerçam apelo especial sobre o nosso coração, é melhor recitar uma ou duas destas de cada vez, ou repetir a mesma durante uma semana, do que nos sobrecarregarmos com uma longa coleção de orações formais todas as noites.

Seguindo assim, se a nossa disposição em rezar aumenta, é sempre ocasião de ampliar a lista, mas é preferível optar por orações breves. O caminho que temos de percorrer é longo, e o que importa é perseverar até o fim. Além disso, uma das razões que nos levam a insistir para que não tornemos a oração um fardo pesado é porque, nessas condições mais suaves, é mais provável que durante o dia venham constantemente aos nossos lábios as invocações espontâneas, com piedosos louvores, ações de graças e súplicas, e essa espécie de oração é muito necessária. Seja como for, “Deus ama quem doa alegremente” (2Cor 9,7), e é melhor dar-lhe dois minutos com alegria do que duas horas contrafeito.

Métodos necessários para a oração: as fórmulas e a intimidade
Há duas formas de rezar que se revestem de grande importância e que são, de fato, necessárias: a primeira é usar uma fórmula fixa e procurar conformar o nosso pensamento com o seu significado; a segunda é rezar fazendo uso das nossas próprias palavras e procurando exprimir com elas os sentimentos que despertam no nosso coração. Nas nossas orações diárias, devemos usar de um e de outro processo. O primeiro é necessário porque há forçosamente sentimentos que não surgem espontaneamente; têm de se adquirir com o emprego de fórmulas e com leitura. Além disso, se tivéssemos de improvisar todas as vezes que rezamos, em breve nos perderíamos na oração. O segundo processo é também necessário, por se tratar, muito provavelmente, da mais excelente forma de nos conservarmos em contato com Nosso Senhor, e isso resume toda a vida espiritual.

É certo que nos unimos a Nosso Senhor em toda a oração: de fato, faz parte desta uma certa dependência dEle. Mas o progresso da nossa vida espiritual depende do desenvolvimento da amizade e intimidade com Ele, de modo a conseguirmos que Ele tome parte em todas as nossas ações. Se a nossa amizade obedece a termos convencionais, isso não será tão fácil. Devemos, portanto, voltar-nos frequentemente para Ele e falar-lhe, empregando palavras nossas, sobre qualquer coisa de interesse mútuo.

Os termos de referência não escasseiam. E porque a nossa vida só é plenamente cristã se for compartilhada completamente com Ele, esses termos de referência também não são demasiadamente vastos. Essa dupla forma de oração pode variar muito. Pode usar-se qualquer fórmula bem conhecida, que sirva para nos unir a Ele. Há muitas pessoas, por exemplo, que rezam os Mistérios do Rosário quando andam pelas ruas ou estão em filas de ônibus, na sala de espera do consultório médico ou mesmo no seu local de trabalho, quando a natureza deste o permite. Outros preferem usar jaculatórias ocasionais, mas que devem ser meditadas e sinceras. Há muitas jaculatórias que, recitadas com fervor, ganham indulgências. Isto pode convencer-nos de que temos de as repetir todas as vezes que pensamos nelas. Não devemos, entretanto, sentir o peso da obrigação indefinida de as repetir vezes determinado número de vezes ou vezes sem fim. O amor incondicional a Deus deve ser a regra. Amor este que deve ser buscado e cultivado a cada instante da vida do cristão e cuja prática nos levará, afinal, à feliz descoberta de que podemos estar na Presença do Senhor sem lhe dizer nada, e esse processo de união com Ele é em Si mesmo uma excelente oração – que não deve ser perturbada por qualquer tentativa para rezar “orações prontas”, a não ser que estas sejam de obrigação. Deve haver nisto uma completa liberdade de espírito, em tudo o que não seja de obrigação. De outra forma não haverá verdadeiro progresso na vida espiritual.

Não há, na realidade, ocupação, exceto o pecado, que seja incompatível com essas orações espontâneas. Claro está que há orações que se devem recitar durante o dia, às quais devemos dedicar toda a nossa atenção, pondo de parte todo o resto; mas Deus nos livre de que limitássemos as nossas orações apenas àquelas que se recitam de joelhos, em situações e/ou horários determinados.

Este ponto pode talvez ser esclarecido com o exemplo de dois homens que tinham por hábito rezar quando regressavam a casa, findo o seu trabalho. Levantou-se a questão sobre se seria lícito fumar enquanto rezavam, e cada um deles decidiu consultar o seu diretor espiritual. Um deles foi asperamente censurado, por pensar em fumar enquanto rezava; o outro tinha outra espécie de diretor, que lhe disse que, embora o fumar durante a oração fosse suscetível de objeção, não via, no entanto, motivo sério de proibi-lo de rezar enquanto fumava. Este conto não passa disto mesmo: um conto, mas pode chamar atenção para o fato de que existe diferença entre oração regular e oração irregular e que, ao passo que a primeira exige determinadas regras, pode-se – e mesmo deve-se –, usar da segunda em qualquer parte.

Outro caso semelhante nos é relatado por um sacerdote ancião, que dizia: “Em tudo o que não é pecado, não há razão para não poder ser compartilhado com Deus”. Pode-se, por exemplo, rezar deitado? Sem dúvida é melhor rezar de joelhos, mas não vemos motivo para dizer que é pecado rezar se estamos deitados. Deitar para rezar talvez não seja bom, mas não se pode negar que é bom rezar em toda situação, quer estejamos deitados, sentados, em pé ou ajoelhados. De modo semelhante, não há porque se afirmar que não podemos falar com Ele e desfrutar ao mesmo tempo de alguma das coisas que criou para o nosso descanso, recreio ou deleite. Sim, também o prazer e o recreio têm o seu lugar próprio na vida espiritual; sendo assim, não constituem obstáculos para uma união íntima com Deus, podendo mesmo servir para reforçá-la.

Há, portanto, orações para todas as horas e há também horas para a oração natural e não estudada, que é quando falamos com Deus em termos semelhantes àqueles que usamos quando falamos com os nossos amigos. Devemos aprender a sentirmo-nos à vontade com Deus e devemos compreender que não há necessidade de estar sempre se dizendo alguma coisa. A esposa que ama profundamente o seu marido, e que tem a certeza de ser por ele amada, sente-se à vontade em sua companhia mesmo (talvez até especialmente) quando estão os dois em silêncio, seja num passeio ou fitando-se nos olhos, num momento de descanso; ela sabe bem que não precisa falar e repetir sem cessar que o ama ou que lhe quer bem: quando a relação de intimidade chega a determinado estágio, surge tal cumplicidade e compreensão que um compreende o outro sem a necessidade das muitas palavras.

Devemos admitir, no entanto, que há ligação íntima entre a oração silenciosa e a pureza da nossa consciência. Não é, em geral, possível sentirmo-nos à vontade diante de Deus se conservamos a intenção deliberada de cometer pecados habituais. Mas o pecado de que estamos arrependidos não constitui obstáculo a essa amizade, assim como o não constituem os pecados em que caímos repentinamente por fragilidade. O próprio ato de contrição abre o caminho para novo contato com Deus, e como Ele é o nosso Salvador, não devemos ter receio de lhe patentear os nossos pecados e as nossas fraquezas.

Apesar de tudo o que dissemos até aqui, com o fito de clarear o caminho dos buscadores de Deus, há algumas pessoas que sentem a necessidade de recitar orações mais longas durante o dia, como por exemplo o Terço, o Ofício Menor, alguns dos Salmos ou outras orações deste gênero. É necessário prudência na escolha e na medida de tais práticas, mas não há dúvida de que há muitos casos em que a prudência não só consente, mas até exige tais orações prolongadas.

Como rezar sempre bem e sempre agradar a Deus na oração
Em certas orações, como seja a recitação do Terço, a repetição constante torna impossível seguir o significado de cada palavra, mas isso é bom e desejável, porque o que se busca aí é a contemplação dos Mistérios propostos e não o desgaste mental no “martelar” das mesmas palavras muitas vezes repetidas; noutras, como por exemplo o Ofício Divino, a multidão de ideias aí expressa segue-se numa sequência tão rápida que é impossível que o pensamento se adapte a cada uma delas e possa ao mesmo tempo concluir a sua leitura em tempo razoável. Nesses casos, a atitude mental pode ser um pouco diferente – aqui exporemos um método de tremenda utilidade para a oração, que pode ser aplicado de modo geral ou, pelo menos, mais amplo e está intimamente ligado à oração mental. Ocorre que se pode, nestes e em outros casos, durante a oração, prestar mais atenção em Deus, a Quem se está orando, do que às palavras das orações mesmas que se recitam – confiando plenamente, entretanto, que essa oração, assim como diversas outras, agradam a Deus, quer em razão da sua origem divina, quer por motivo da autoridade que nos deu ou pela sua pia intenção.

Assim, ao recitar a Ave-Maria, por exemplo, podemos lembrar-nos de que as palavras com que começa são aquelas pelas quais Deus, por intermédio do Anjo, fez a Maria a proposta mais admirável que jamais se fez a um ser humano. Claro está que essa composição de palavras têm para Maria um significado que está fora de toda a compreensão que as palavras por si são capazes de transmitir, e podemos estar certos de que lhe agradam muito, e assim homenageamos ao Senhor que as compôs.

Outra belíssima alternativa será considerar essas orações como ditas em nome da Igreja e que o seu significado se aplica às incalculáveis necessidades dos Seus membros, que podemos ignorar. Essa atitude aplica-se, de modo especial, ao Ofício Divino, quando recitado por aqueles que foram designados oficialmente para o recitarem em nome da Igreja, mas aplica-se também, em determinado grau, a toda a oração, porque somos todos membros de Cristo e oramos todos em seu Nome. O significado das palavras que usamos pode exprimir de preferência as necessidades e sentimentos de outros membros do Corpo Místico de Cristo e a nossa atenção concentrar-se-á então mais em “Cristo integral”, ou num sentido obscuro de sociedade com Ele, do que nas palavras especiais de que fazemos uso.

Nas orações muito longas, experimentamos quase sempre grandes dificuldades em concentrar a nossa atenção e evitar as distrações. A distração voluntária é evidentemente censurável quando significa o alheamento do nosso pensamento de Deus e daquilo que estamos a fazer. Há distrações parciais que podem fazer parte da nossa oração, como seja a prática de um ato de caridade ou de qualquer ação necessária. Nesses casos, os nossos corações não se desviam na realidade de Deus e apenas se modifica por momentos a forma de O servirmos. Os Santos foram sempre exímios na sua prontidão em interromper as suas orações particulares para servirem a Cristo na pessoa do próximo. Com as distrações involuntárias, o caso é diferente. Se não procederem de um descuido antecipado e deliberado, como seja a falta de esforço para fixar a nossa atenção no princípio da oração, não há aí certamente qualquer culpa. Não se podem evitar mesmo em pessoas dotadas da melhor boa vontade. Um pensamento suscita outro e uma imagem evoca outra; a própria natureza do nosso pensamento e da nossa imaginação é tal que tende sempre para a divagação. Enquanto não nos apercebemos dessas divagações, não ha certamente culpa da nossa parte. Quando damos, porém, pela distração, é nosso dever voltar a empregar os nossos esforços para despertar a nossa atenção.

Em certas ocasiões, é relativamente fácil nos vermos livres das distrações, mas, em outras ocasiões, estas são tão persistentes que a melhor forma de proceder e deixar correr as coisas e contemplar a Deus sem nos mortificarmos. Não é sempre fácil despertar a atenção e há ocasiões em que a nossa oração parece não passar de uma longa série de distrações combatidas, sem dúvida, mas sem qualquer resultado. É bom que nos lembremos de que as orações recitadas nessas condições podem ser muito agradáveis a Deus. Cada tentativa que fazemos para despertar a atenção é uma elevação do nosso pensamento a Deus, feita com dificuldade, e que por isso lhe é muito agradável como oração, quer dê bom resultado quer não, pois é um esforço para afugentar as distrações.

Deve-se notar que não é necessário prestar atenção a cada palavra que dizemos. Mesmo na linguagem ordinária, quando nos dirigimos a alguma autoridade secular, usamos fórmulas polidas e só atentamos ao seu significado geral. Na oração, podemos empenhar-nos apenas em proferir as palavras corretamente, podemos atentar ao significado das palavras usadas e podemos, finalmente (aqui está a nossa ênfase), prestar atenção à finalidade das palavras que usamos ou à Pessoa a Quem estas são dirigidas. Por esta forma é possível concentrarmos a nossa atenção em Deus e esquecermo-nos quase completamente do que lhe estamos a dizer – e ainda assim rezar bem, já que essa atenção é digna de louvor e não devemos recear que a Pessoa a quem nos dirigimos nos distraia das palavras que lhe dirigimos na oração ordinária.

Os três fins da oração e os diferentes tipos de distração
Os efeitos das distrações nas nossas orações podem ser melhor compreendidos se considerarmos os três fins da oração. A oração é uma obra meritória, por isso a distração superficial não lhe tira necessariamente o merecimento, já que a intenção original e a atenção são a origem de toda oração. Assim, o orante poderá se distrair, sem maiores prejuízos, do que está a dizer, mas não de a Quem está dizendo e com que intenção (louvor, adoração, súplica, ação de graças).

A oração pode também ser considerada pelos efeitos diretos que exerce em nós próprios e em nossas disposições para a vida cristã. Nestes efeitos, é claro que a distração total – que é quando o orante chega a esquecer do que está a fazer, e a Quem e/ou com quais intenções o faz –, é inadmissível e interfere nesses efeitos benéficos.
O melhor método de combater as distrações mais profundas depende, em certo modo, das circunstâncias que acompanham as nossas orações. Nas orações de obrigação há um dever definido a se executar, e por isso não devemos consentir que as distrações, logo que sejam notadas, interfiram com essa obrigação. Neste sentido poderemos mesmo considerar as próprias distrações como intenção das nossas orações, para que cessem, e isto será muito eficaz; em outros casos poderemos ter de lutar com elas durante todo o tempo da oração, e em outros ainda teremos de deixá-las correr (sem aceitá-las), esperando que Deus aceite o mérito de nossa disposição em nos colocarmos diante dEle, de joelhos, por aquele tempo, para adorar, pedir suas graças, agradecer, ainda que não tenhamos podido fazer como gostaríamos.

É importante, então, nos recordarmos de que as distrações, se não forem aceitas deliberadamente e consentidas, não tornam as nossas orações inúteis. Pelo contrário, podem ser, muitas vezes, ocasião de obras meritórias perante Deus.
Por vezes, a causa das distrações é manifesta: uma amizade desordenada, um aborrecimento excessivo, a fadiga, a instabilidade natural do nosso pensamento, a preocupação provocada pelo trabalho ordinário, o ambiente e tantas outras coisas. Seja qual for a sua causa, uma coisa necessária para as evitar é recolhermo-nos completamente no princípio da oração. Se o orante faz isso com generosidade, a oração adquire um valor que nenhuma distração subsequente involuntária pode tirar.
Como dissemos, ao rezarmos particularmente, isto é, ao “falarmos com Deus” como a um Amigo, podemos tomar as distrações como assunto dessa conversa. 

Em última análise, Deus criou todas as coisas e, por isso, todas as criaturas têm pelo menos essa ligação com Ele, a qual pode servir de ponto de partida para novos colóquios.
Há alguns que afirmam não terem as nossas orações verdadeira eficácia impetrativa e trabalham por espalhar a opinião de que a oração feita em particular pouco vale, e que é a oração pública, feita em nome da Igreja, que tem verdadeiro valor, por partir do Corpo místico de Jesus Cristo. Não é isto exato; o divino Redentor não só uniu estreitamente a Si a Igreja como esposa queridíssima, senão também nela as almas de todos e cada um dos fiéis, com quem deseja ardentemente conversar na intimidade, sobretudo depois da comunhão. E embora a oração pública, feita por toda a Igreja, seja mais excelente que qualquer outra, graças a dignidade da Esposa de Cristo, contudo todas as orações, ainda as mais particulares, têm o seu valor e eficácia, e aproveitam também grandemente a todo o Corpo místico; no qual não pode nenhum membro fazer nada de bom e justo, que em razão da comunhão dos santos não contribua também para a salvação de todos. Nem aos indivíduos por serem membros desse corpo se lhes veda que peçam para si graças particulares, mesmo temporais, com a devida sujeição à divina Vontade; pois que continuam sendo pessoas independentes com suas indigências próprias. Quanto à meditação das coisas celestes, os documentos eclesiásticos, a prática e exemplos de todos os Santos provam bem em quão grande estima deve ser tida por todos.”(Pio XII, Mystici Corporis Christi, n.87)